A tecnologia e as relações sociais

Se antes a tecnologia parecia algo distante e inacessível, hoje está sempre presente em nossa rotina e mudou a forma como nos relacionamos na sociedade. Como abordar essas transformações na escola? Como tudo começou… Em meados de 1988, chegava ao Brasil, para uso no meio acadêmico, a internet. No dia 17 de julho de 1994, […]

SM Educação
30 de julho de 2019

Se antes a tecnologia parecia algo distante e inacessível, hoje está sempre presente em nossa rotina e mudou a forma como nos relacionamos na sociedade. Como abordar essas transformações na escola?

Como tudo começou…

Em meados de 1988, chegava ao Brasil, para uso no meio acadêmico, a internet. No dia 17 de julho de 1994, o jornal Folha de S. Paulo dedicou ao tema a edição dominical do seu caderno Mais!, que anunciava: “Nasce uma nova forma de comunicação que ligará por computador milhões de pessoas em escala planetária”. Em caráter experimental, a Embratel começou a difundir a nova tecnologia para uso doméstico. Em 1996, o acesso à internet por linha discada já havia se expandido e Gilberto Gil lançou a música “Pela internet”. E assim, nossa geração foi convidada a conhecer um mundo sem limites ou sem fronteiras, onde tudo que desejássemos poderia estar armazenado a poucos cliques. Mal sabíamos que esse novo mundo mudaria nosso modo de nos relacionarmos, fazermos negócios, trabalharmos, fazermos política, criarmos notícias e nos comunicarmos.

Quando o novo século chegou, trouxe com ele o fenômeno da cibercultura, explicado por Pierre Lévy como “o desdobramento da relação da tecnologia com modernidade que se caracterizou pela dominação racional da natureza e do outro. A cibercultura seria uma atualização dessa dominação, centrada agora na transformação do mundo em dados binários para futura manipulação.

A convergência entre informática e telecomunicação originará a sociedade da informação. De modo que o surgimento das novas possibilidades planetárias da comunicação digital está na origem da cibercultura. Se a modernidade se caracterizou pela apropriação técnica do social, a cibercultura se caracteriza pela apropriação social-midiática da técnica. ”

Sem perceber, começamos a “morar no mundo real e no mundo virtual”. A tecnologia já se fazia presente em todos os locais e, com isso, o mercado de trabalho também começou a mudar e a exigir outras habilidades, antes desnecessárias. As formas de aprender também se modificaram e os cursos a distância logo tomariam forma e ganhariam força.

E nossa geração ia lentamente tentando se adaptar e conviver com essas mudanças. Enquanto isso, nascia “a geração do século XXI”, em meio a toda essa tecnologia e inovação.

Sem percebermos, a geração alpha chegou…

Quase 20 anos se passaram desde que o novo século chegou. Estava em um restaurante almoçando com minha família quando observei duas garotinhas de mais ou menos uns cinco anos. Com o celular em mãos, uma delas gravava uma live, narrando quem estava ali, o que as pessoas faziam, o que comiam.  Encerrou e disse: “pronto, já postei nosso almoço! ”

“Alpha” é um termo usado pelo sociólogo australiano Mark McCrindle para designar a nova geração de crianças nascidas a partir de 2010.

Essa geração, de acordo com o sociólogo, é determinada por pessoas muito mais independentes e com um potencial muito maior de resolver problemas do que seus pais e avós.

Como uma geração que só conheceu o mundo virtual ao final dos anos 90, que se formou em uma escola em que os conceitos eram aprendidos e reproduzidos apenas e que foi para um mercado de trabalho em que o “bom funcionário era aquele que cumpria sua jornada de trabalho e executava sua função da mesma forma”, pode, agora, lidar com uma criança questionadora, que, quando deseja aprender alguma coisa, “procura um tutorial na rede”, que recebe um bombardeio de estímulos pelas redes e vive conectada?

Pânico ou novo olhar?

Se pensarmos em tempo cronológico, em vinte oito anos aproximadamente, o mundo mudou consideravelmente e ainda estamos nos adaptando a todas essas mudanças. O problema é que o tempo não espera e, por vezes, essa adaptação não permite análise ou erro. Isso, claro, nos causa medo e ansiedade.

É comum ouvirmos pessoas dizendo “no meu tempo éramos mais felizes sem computador”. “No meu tempo brincávamos mais, as crianças eram mais felizes”. “No meu tempo, as pessoas se olhavam nos olhos. ”

Será mesmo que éramos mais felizes sem o “computador”? Ou será que apenas precisamos aprender a viver em um mundo novo?

Internet e as redes sociais: vilãs ou mocinhas?

A presença da tecnologia em nosso cotidiano é fato, e a nossa atitude não deve ser culpá-la ou inocentá-la. Precisamos aprender a usá-la com responsabilidade e qualidade, compartilhando esses saberes com nossos jovens e crianças.

Assim como aprendemos as regras de convivência no mundo real, o mesmo se aplica ao mundo virtual.

O que li é verdadeiro?

Com a expansão das redes sociais virtuais e a democratização da informação na internet, surge o fenômeno das fake news. Todos podem produzir notícias ou divulgar ideias que nem sempre são verdadeiras.

A mídia está recheada de notícias falsas. Há grupos criados para produzir notícias com objetivos variados, como manipular a opinião pública, gerar amor ou ódio a determinados grupos, estimular ou não o consumo de produtos. Na eleição para presidente dos EUA, Donald Trump foi acusado de se valer desses grupos para vencer, produzindo notícias falsas sobre seus concorrentes. Os exércitos americano e inglês atacaram a Síria, em abril de 2018, assim que foram divulgadas imagens de adultos e crianças sendo atendidos após um ataque químico. Por sua vez, a Rússia e o governo da Síria disseram que as imagens eram apenas uma encenação. Em quem acreditar?

Quem nunca curtiu ou compartilhou no Facebook uma notícia sem checar a sua veracidade?

Para evitar cair nas “armadilhas das falsas notícias”, é preciso tomar alguns cuidados:

  • Checar a fonte.
  • Pesquisar a história do site, canal, grupo ou pessoa que está publicando a notícia.
  • Evitar sites sensacionalistas.
  • Ler a matéria completa e não apenas o título.
  • Checar outras notícias da mesma fonte para verificar a credibilidade da fonte.
  • Conferir a credibilidade e formação do autor.
  • Duvidar de textos que contenham erros de formatação e ortografia.
  • Conferir a data do post ou texto.
  • Pesquisar a mesma notícia em outras fontes para comparar e checar a veracidade da informação.

O que meus filhos estão vendo?

Um dos grandes desafios que as famílias hoje enfrentam é lidar com o acesso de seus filhos às redes sociais e quanto tempo permanecem conectados. Ficam em dúvida, na maioria das vezes, se precisam vigiar os conteúdos, controlar tempo de acesso, quais aparelhos as crianças devem ter e com qual idade podem participar de redes sociais.

Os pequeninos…

As crianças estão sendo bombardeadas por uma série de estímulos que acabam por prejudicar seu desenvolvimento e concentração. No mundo virtual, a mudança de foco e informações é muito rápida e isso acaba vindo para o mundo real. A educadora Catherine L’Ecuyer, em seu livro Educar na curiosidade, nos fala sobre a importância de proporcionarmos às nossas crianças momentos de realidade, de admiração ao comum, ao meio, ouvir o entorno, sentir seu ritmo. São muitos os estudos que, seguindo essas necessidades da primeira infância, afirmam que até os dois anos as crianças deveriam não ter contato com aparelhos eletrônicos. O problema é que vemos cada vez mais o celular se tornar a babá, cena comum em restaurantes, lojas, parques. O bom seria se a babá pudesse ser o diálogo com os familiares, as cantigas, as brincadeiras. 

Nossos jovens…

Falando em crianças maiores e adolescentes, a preocupação passa do estímulo para a influência digital. Esse é outro fenômeno que cresce e deve ser compreendido e discutido. Há novos profissionais que desenvolvem esse trabalho, os youtubers e os influenciadores digitais em busca de likes e seguidores.

A adolescência é um período de mudanças físicas e emocionais, de compreender a si e ao outro, e a necessidade de ser aceito em um grupo é muito importante. É aqui que esses “influenciadores digitais” e as redes podem se tornar “perigosos amigos”.

Há muitos desses canais que mostram jovens em situação vexatórias, convidando ao consumo, estimulando o preconceito ou a violência.

A escola e as famílias devem promover espaços para a discussão sobre a responsabilidade em relação ao que falamos. Ser um youtuber, ganhar muitos likes, fazer disso uma profissão não é o problema. Pelo contrário, mas devemos nos atentar ao que falamos e propagamos.

Um trabalho interessante de se fazer na escola é o jogo do Curtir e compartilhar. Com a turma em círculo, discutir primeiro qual é o conceito da ação de curtir algo e compartilhar algo. Na sequência, distribuir placas com os sinais de curtir e de compartilhar. Mostrar vídeos e notícias positivas e negativas para que eles possam julgar se curtem ou não, e se compartilham. Quando curtirem, o que assumem? E se compartilham, qual a responsabilidade desse ato?

Outras ações positivas são promover debates nas escolas, com famílias e alunos, levando pessoas que podem ajudar na reflexão, como advogados especialistas em crimes digitais, psicólogos, profissionais de tecnologia.

Em casa, os familiares devem assistir aos canais com os quais os filhos estão tendo contato, falar sobre seus conteúdos e não simplesmente proibir. O diálogo é essencial.

Jogos para divertir ou para manipular?

A gamificação é uma excelente estratégia pedagógica, e crescem ações nas salas de aula que tornam o aprendizado mais significativo e real.

Com o avanço da tecnologia, os jogos estão cada vez mais reais e desafiadores.

O problema está no tempo destinado ao jogo, em que ele se torna uma fuga, e saber qual a classificação dos jogos, já que alguns apresentam excesso de violência para crianças e adolescentes. A solução não é proibir o jogo, mas é importante conhecer o que os filhos estão jogando.

Outros jogos aos quais as famílias e a escola devem estar atentas são os que incentivam automutilação, violência e até suicídio.

Cresce o número desse tipo de vídeo no YouTube: jogo do desmaio, Baleia Azul, o grupo The H4ters, vídeos que ensinam a se automutilar e a esconder dos adultos.

Quem lida com jovens deve ter o hábito de navegar em sites e no YouTube para ver o que está “rolando”, promovendo o diálogo e a reflexão. Não podemos ter contato com esses canais ou situações apenas quando provocam uma tragédia, muitas vezes próximas de nós ou dentro de nossas casas.

Quais habilidades necessárias na era digital a escola deve trabalhar?
  • Habilidade de uso da internet.
  • Habilidade de uso de ferramentas tecnológicas interativas.
  • Habilidade de comunicação verbal e escrita.
  • Habilidade de coletar informações fidedignas pela internet.
  • Habilidade em certificar a veracidade da fonte informacional da internet.
  • Habilidade de pensar em um modelo mental sistêmico e não apenas linear.
  • Habilidade de se comportar de maneira ética nas redes sociais.
  • Habilidade em viver em coletividade pela web.
  • Habilidade em respeitar pontos de vista opostos aos seus quando em convívio coletivo na web.
  • Acuidade em perceber e interpretar as mais diferentes multimídias.

Como fazer da sala de aula um espaço de aprendizado real e significativo?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz na descrição das competências que devem ser adquiridas ao longo do Ensino Fundamental, a que se refere à cultura digital, que é: “Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.”

Atenta ao desenvolvimento integral das crianças, a escola deve promover sequências didáticas e estratégias que propiciem: questionamentos, foco, pesquisa, análise, interpretação, argumentação e a busca de estratégias para resolução de situação-problema. A criança sendo ativa em seu processo de aprendizagem, e o professor, mediador dessa ação.

A escola não é mais um local de transmissão de conteúdo, mas um espaço de pesquisa, reflexão e trocas. Como nos fala Edgar Morin:

“É necessário dizer que não é a quantidade de informações, nem a sofisticação em Matemática que podem dar sozinhas um conhecimento pertinente, mas sim a capacidade de colocar o conhecimento no contexto. ”

As metodologias ativas são ferramentas que devem estar presentes nas salas de aula.

Como evitar o ciberbullying?

Os vídeos mais vistos e compartilhados nas redes são os que mostram pessoas sendo humilhadas ou em cenas vexatórias. Isso demonstra um hábito que temos em nos divertirmos com esse tipo de situação. Por exemplo, achamos engraçadas as “videocassetadas”.

Muitas vezes, disfarçados de brincadeira, o preconceito e a humilhação acontecem nas escolas. Aquele que brinca, sempre olha com “espírito de diversão”; aquele que sofre nunca esquece o que sofreu.

Potencializado pela velocidade das redes sociais, o ciberbullying, atitude que envolve o uso de tecnologias de informação e comunicação para dar apoio a comportamentos deliberados, repetidos e hostis praticados por um indivíduo ou grupo com a intenção de prejudicar o outro, vem preocupando cada vez mais docentes e familiares.

Devemos sempre trabalhar a importância da responsabilidade de nossos atos, o que falamos e o que escrevemos, o que compartilhamos no Facebook ou no WhatsApp. Qual a função dessas ferramentas e quando são usadas para propagar a intolerância, o preconceito ou para humilhar alguém?

Assunto de extrema importância, precisa ser discutido nas escolas por meio de: palestras com profissionais, dinâmicas de grupo, debates de casos reais, trabalhos em equipe, discussão de regras de convivência, apresentação de como se prevenir e denunciar crimes virtuais.

Só depende de nós…

As tecnologias ajudam na construção de uma comunicação mais clara, direta e global. Uma comunicação mais rápida e eficaz, que aproxima não só alunos e professores, mas também pais e responsáveis da escola.

Só depende de como usamos e como nos relacionamos com elas. O diálogo e a reflexão não podem ser deixados de lado. Uma sociedade só evolui quando consegue formar cidadãos que sabem respeitar a diversidade e ter um olhar coletivo.

A educação é o caminho, e a tecnologia, a estratégia.


Sobre a autora | Profª Mª Tatiana Pita

Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialização em Psicopedagogia, UNIP. Mestre em Educação pelo programa História, Política e Sociedade, PUC-SP. Doutoranda no programa de Tecnologia da Inteligência e Design Digital, pela PUC–SP. Professora da graduação do curso de Pedagogia e da pós-graduação das áreas de Educação. Coordenou o curso de Pedagogia da Faculdade Método de São Paulo. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Métodos e Técnicas de Ensino. Atua como contadora de histórias (eventos e formação). Assessora pedagógica e supervisora em Editoras, com experiência na formação de professores nas redes pública e privada, treinamento de equipe comercial e produção de materiais didáticos.

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